Claudia Matias – A Astrologia na Dialética Destino versus Livre-Arbítrio

A relação entre o cosmos e o indivíduo tem sido alvo de diferentes conceções ao longo dos tempos e nas diferentes culturas, promovidas pelo pensamento religioso, filosófico e científico. Estreitamente ligado à visão cosmológica desenvolveu-se o debate sobre a dialética destino versus livre-arbítrio, no centro do qual se encontrou muitas vezes a astrologia, como disciplina que interpreta a relação entre os astros e a existência terrestre.   

As primeiras conceções sobre o cosmos surgiram, muito provavelmente, quando o homem primitivo começou a observar o movimento dos astros na abóbada celeste e a relacioná-lo com eventos terrenos. Não obstante as diferenças culturais de época ou região, parece ter prevalecido, desde a pré-história, uma visão da natureza determinada pela vontade dos deuses, muitas vezes considerados erráticos mas também suscetíveis às ações dos homens, que procuravam agradar-lhes através de rituais e oferendas.

Durante o primeiro milénio A.C. essa visão começou a ser substituída por uma busca de explicações racionais para a origem e transformação do cosmos, protagonizada sobretudo pelos filósofos gregos, na sequência da qual se formulou um paradigma cosmológico orgânico – o universo visto como um organismo vivo, em que todas as partes se relacionavam entre si. E foi no âmbito deste modelo que a astrologia se desenvolveu e prosperou.

Pelo papel central que teve na discussão do tema destino versus livre-arbítrio, alimentando o debate filosófico e teológico sobre o assunto durante largos séculos, importa salientar a visão cosmológica do estoicismo, que concebia o universo como um organismo vivo, onde tudo tinha uma causa e todas as causas se inter-relacionavam, numa ordem predeterminada por uma intenção imanente. Neste contexto, a liberdade do indivíduo consistiria em entregar-se confiadamente ao seu próprio destino, pois aquele que conhecesse e atuasse em consonância com o objetivo cósmico seria efetivamente livre. Este princípio encontra-se expresso na frase, atribuída ao filósofo estoico Séneca: “o destino conduz o que consente e arrasta o que resiste”.

Nos séculos XVI e XVII ocorreu uma grande mudança de paradigma cosmológico, primeiro com o modelo heliocêntrico e depois com o modelo mecanicista. A prática astrológica foi abalada principalmente pelo segundo, que considerava o universo como um corpo mecânico, no qual os processos naturais mecanicamente determinados podiam ser traduzidos por leis físico-matemáticas, e relegava as relações empiricamente indemonstráveis entre o cosmos e o indivíduo.

O modelo mecanicista foi bastante questionado nos séculos seguintes, primeiro pela filosofia e pelo esoterismo, que, perante a sensação de perda da unidade entre o homem e o cosmos (criada pelo excessivo racionalismo da ciência), procuraram uma explicação holística e vitalista do universo; depois também pela ciência, particularmente com a teoria da relatividade e a mecânica quântica, que colocaram em causa os princípios absolutos da visão mecanicista. Esta contestação contribuiu consideravelmente para que a astrologia recuperasse o seu papel de linguagem simbólica de um cosmos vivente, onde todas as partes se correlacionam.

A cosmologia moderna tende, assim, a retomar o paradigma de um cosmos orgânico, imbuído de um propósito consciente, do qual o ser humano é parte integrante e agente cocriador.

A discussão sobre a pertinência e a validade da prática astrológica incluiu sempre a questão do que poderia ser determinado pelas energias cósmicas e o que dependeria da liberdade humana.

Para além dos que consideraram que nada estava predeterminado e toda a ação humana dependia única e exclusivamente da vontade do indivíduo, as principais perspetivas defendidas, ao longo da história, encontram-se entre a convicção de que tudo estava predeterminado e a única liberdade do indivíduo era a de reconhecer esse fato e aceitar o que o destino lhe reservava a cada momento; e a argumentação de que destino e livre-arbítrio coexistiam (e.g. porque o destino só determinava o aspeto corpóreo do indivíduo e não o seu aspeto espiritual (ou mesmo mental), ou porque o destino era determinado ao nível coletivo e, embora o indivíduo estivesse subordinado a esse destino coletivo, tinha liberdade ao nível individual); passando pela ideia de que só podiam ser determinadas tendências ou probabilidades de manifestação, cuja concretização dependia do livre-arbítrio.

Principalmente até ao século XIX, enquanto a prática astrológica esteve essencialmente direcionada para a previsão de aspetos concretos da vida pessoal (e.g. a longevidade ou o sucesso social de um indivíduo) e eventos precisos e determinantes da vida política, económica ou social de um estado (e.g. uma epidemia, o resultado de uma batalha, a morte de um soberano), a aceitação da astrologia esteve muito dependente da visão filosófico-religiosa dominante sobre a dicotomia entre o destino predeterminado e o livre-arbítrio. Muitas vezes, essa foi uma visão que conduziu à condenação da astrologia judiciária, por considerar que esta suprimia o livre-arbítrio e consequentemente retirava ao indivíduo a responsabilidade moral pelos seus atos; mas que aprovou a astrologia natural, aplicável nomeadamente à meteorologia, agricultura, navegação e medicina.

A partir do século XX, a astrologia desenvolveu-se mormente por influência das escolas esotéricas (ligadas ao movimento teosófico) e do desenvolvimento da psicologia (especialmente na sequência do trabalho de Carl G. Jung). Consequentemente, a astrologia assumiu, cada vez mais, uma orientação psicológica e transpessoal.

Não obstante o atual predomínio de uma astrologia dirigida para questões psicológicas e metafísicas, que fala mais em potencialidades de desenvolvimento pessoal do que em eventos predeterminados, coexistem abordagens da astrologia baseadas em diferentes conceções da relação entre cosmos e indivíduo e entre destino e livre-arbítrio.

Pessoalmente concebo o destino como um propósito cósmico existente para todos e cada um de nós, operando a diferentes níveis, do mais global para o mais individual (como uma “matrioska”); e nos diferentes planos da existência, em que as experiências ou aprendizagens da personalidade (ao nível dos corpos físico, emocional e mental) visam o cumprimento do propósito da alma, que, por sua vez, visará eventualmente um propósito maior.

Não pretendo responder à questão do que está ou não determinado em cada momento, até porque acredito que a resposta não será única e uniforme, pois entendo o destino como uma espécie de “guião”, que permite mais ou menos “improviso” em diferentes situações.

Considero que o livre-arbítrio está sobretudo na forma como o indivíduo vive esse destino, no nível de consciência com que o encara e na capacidade de ser cocriador do seu próprio destino, ao colaborar conscientemente com o plano cósmico.

Não creio, por tal, que destino e livre-arbítrio sejam opostos, mas sim duas faces da mesma moeda. A diferença está principalmente na perspetiva. Quando a pessoa flui com aquilo que o universo lhe pede, sente que controla a sua vida e chama-lhe livre-arbítrio. Quando resiste ao que precisa de fazer para cumprir o seu propósito, levando a que tal se imponha através de circunstâncias externas (muitas vezes pouco agradáveis), chama-lhe destino.

Da mesma forma que o indivíduo projeta nos outros as características que não aceita em si, projeta no exterior as energias com as quais se recusa a fluir. Vejamos o exemplo dos trânsitos dos planetas transpessoais:

Sob um trânsito forte de Úrano ao tema natal é comum a pessoa sentir inquietação e o impulso de romper com o que limita (ou parece limitar) a sua expressão ou liberdade. Mas a forma de responder a essas energias pode ser muito diversa: a pessoa pode seguir cegamente o impulso de revolucionar a sua vida e mudar só por mudar; pode conscientemente tornar-se recetiva à mudança e libertar-se daquilo que não serve o seu desenvolvimento; pode ignorar o que se passa na sua psique, resistir à mudança e agarrar-se à pretensa segurança daquilo que é conhecido, fazendo com que as forças renovadoras se manifestem a partir do exterior, tendencialmente sob a forma de ruturas abruptas.

Num trânsito crucial de Neptuno o apelo é de dissolução do ego e fusão com o Todo, ao que o indivíduo pode responder, nomeadamente: alienando-se da realidade e entrando num mundo de ilusão; conscientemente cultivando o desapego, conectando-se com o seu aspeto espiritual ou dedicando-se a uma causa; ignorando esse apelo e assistindo à dissolvência de estruturas da sua vida que julgara sólidas.

Os trânsitos determinantes de Plutão requerem transformações profundas, que visam regenerar determinado aspeto, ou a totalidade, da vida da pessoa. Esta deve responder conscientemente a essas energias com flexibilidade, atendendo aos sinais de necessidade de transformação das estruturas que já não se adequam ao seu desenvolvimento e promovendo essa mesma transformação. Se optar por resistir à mudança, fará inevitavelmente com que esta lhe seja imposta pelo exterior, muito provavelmente de forma violenta e dolorosa.

Quanto mais consciente o indivíduo estiver do que lhe é pedido em cada momento e da resposta que dá a esse apelo (sob a forma de pensamentos, sentimentos e ações), mais o destino e o livre-arbítrio tendem a conciliar-se. Até que, quando a consciência pessoal alcançar uma total sincronia com os apelos das energias cósmicas, os conceitos de destino e livre-arbítrio deixem de fazer sentido.

E, neste âmbito, a astrologia – como meio de interpretação, através da linguagem simbólica escrita nos astros, dos sinais do que o universo pretende do ser humano – tem um papel fundamental, ao ajudar a que a pessoa se conheça, perceba como tem vivido as suas energias natais e ciclos de vida e como poderá vivê-los de forma mais consciente e em sincronia com o que lhe é pedido pelo universo a cada momento.

Concluo com uma frase de Carl G. Jung, que sintetiza a minha perspetiva sobre este assunto: “o livre-arbítrio é a capacidade de fazer com alegria aquilo que eu devo fazer”.

 

Bibliografia consultada:

GREENE, Liz, A Astrologia do Destino, Pensamento, 1997.

STUCKRAD, Kocku von, Astrologia – Una Historia Desde Los Inicios Hasta Nuestros Días, Herder, 2005.

Artigo de Claudia Matias – publicado no Jornal Astrológico 4 Estações – edição nº 21

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