Cláudia Matias – PLANETAS SOCIAIS EM DOMICÍLIO: OPORTUNIDADE DE REDEFINIÇÃO DOS VALORES SOCIAIS

Júpiter e Saturno são designados por planetas sociais, pois, é sobretudo através da combinação das energias representadas por estes planetas que se estabelecem a visão da vida, a estrutura ética e as formas de atuação social, as quais definem grandemente o ambiente coletivo em cada momento.

Desde novembro de 2018 e até ao início de dezembro de 2019, Júpiter e Saturno encontram-se ambos domiciliados nos signos que regem sozinhos – Sagitário e Capricórnio, respetivamente – algo que ocorre aproximadamente a cada 59 anos, sendo seguido, após cerca de 2 anos, por um período em que os planetas sociais transitam simultaneamente nos signos cuja regência partilham com planetas transpessoais – Peixes e Aquário (o que ocorrerá em 2021/22).

Entre estes dois períodos de posicionamento simultâneo dos planetas sociais nas respetivas regências tem lugar a conjunção de Júpiter-Saturno, em dezembro de 2020 (cujo aspeto exato ocorre no primeiro grau de Aquário), dando início a um novo ciclo de desenvolvimento das estruturas sociais. Assim, os valores e a visão social predominantes em 2019 preparam, em grande parte, o cenário em que ocorrerá a conjunção de 2020 e a Grande Mutação para o elemento Ar.

Júpiter e Saturno são usualmente vistos como opostos, desde as antigas designações de “grande benéfico” e “grande maléfico”, até ao simbolismo moderno de princípio de expansão e princípio de contração. Efetivamente, Júpiter associa-se à projeção no futuro, Saturno à conservação das estruturas do passado; Júpiter às ideias abstratas, Saturno à experiência empírica; Júpiter à inspiração e visão, Saturno à análise racional; Júpiter ao crescimento e prosperidade, Saturno às restrições e privações; Júpiter ao otimismo e fé, Saturno ao ceticismo e pragmatismo; Júpiter à proteção e sorte, Saturno a bloqueios e dificuldades; Júpiter ao impulso para explorar o mundo, Saturno à necessidade de segurança dentro dos limites do conhecido; Júpiter à confiança que permite arriscar e evoluir, Saturno à responsabilidade de construir uma estrutura estável.

Todas estas correlações evidenciam que a influência dos planetas sociais é essencialmente complementar. Júpiter impele a diversificar as experiências e conhecimentos para ampliar a perspetiva, o que acarreta o risco de inconstância. Saturno exige consolidação de ideias e atitudes para a assunção duma função social, o que tem como risco a rigidez e a estagnação. Movimento e estabilização complementam-se e equilibram-se.

Entre o mais imponente planeta do sistema solar e o planeta com o mais admirável sistema de anéis existem também pontos de intersecção. Ambos os planetas sociais proporcionam desenvolvimento (no sentido jupiteriano de expansão e entendimento, ou no sentido saturnino de amadurecimento e aperfeiçoamento) e aumento de consciência (através da compreensão das questões que Júpiter amplia, ou por meio dos testes e limitações que Saturno coloca); bem como, representam sabedoria (Júpiter pela compreensão resultante dos conhecimentos e vivências assimilados, Saturno pela mestria alcançada com a experiência e o tempo) e encontro de significado (Júpiter através da verdade obtida pela intuição ou pelo estudo filosófico e metafísico, Saturno através do esforço e da introspeção sobre a experiência terrena). Juntos representam a ordem, a justiça, o poder social e, sobretudo, os valores sociais – e.g. verdade, ética, liberdade, fraternidade e generosidade (associados a Júpiter), responsabilidade, organização, retidão, sobriedade e fidelidade (relacionados com Saturno).

Com Júpiter e Saturno a transitarem os signos que regem e, por tal, mais consonantes com a sua natureza, as energias por eles simbolizadas expressam-se de forma mais genuína, pelo que, a complementaridade e o equilíbrio das suas influências torna-se ainda mais essencial.

Júpiter, no signo que simboliza a busca de sentido, pode intensificar a procura e divulgação didática de conhecimento; promover a compreensão e propagação de princípios universais e ideais humanitários, bem como, as atividades filantrópicas; facilitar a assimilação da diversidade cultural e a confiança na perceção intuitiva. Mas, sem a moderação e o pragmatismo de Saturno, podem ocorrer grandes excessos, incluindo a difusão e adesão massiva a ideias dogmáticas; o destaque de posturas arrogantes, moralistas e hipócritas, ou de otimismo excessivo e indolência; a idealização de objetivos megalómanos que não chegam a materializar-se.

Saturno, no signo que representa a realização em sociedade, reforça o apelo de responsabilidade social, nomeadamente, através da análise e reestruturação das estruturas de poder (sociais, políticas, financeiras, etc.) e da concretização prática dos valores e ideais sociais. Mas os aspetos de julgamento social e controlo também tendem a ser acentuados em Capricórnio, pelo que, sem a amplitude de visão de Júpiter, pode verificar-se o enraizamento de atitudes de rigidez e sectarismo; o seguimento de figuras ultraconservadoras e autoritárias; a criação de políticas protecionistas e repressoras, que erguem muros e geram medo e divisão.

Na anterior conjugação de Júpiter em Sagitário com Saturno em Capricórnio, em 1959/60, tiverem lugar expressões de elevação da consciência e do padrão de valores; e simultaneamente foram extremadas posições divergentes.

Este foi um período em que as preocupações sociais assumiram maior relevância na política de vários países do ocidente, a descolonização do continente africano progrediu grandemente e se verificou o eclodir do movimento de contracultura que marcou a década de 60, no qual se insere a contestação do poder estabelecido, a luta pela igualdade de direitos e liberdade de expressão, a difusão de ideais pacifistas e a adoção de estilos de vida alternativos (anti-consumismo, de redescoberta da espiritualidade, com preocupações ambientais e valores comunitários). Por outro lado, em pleno clima de Guerra Fria, cresceu o confronto ideológico entre os regimes comunistas e capitalistas, manifesto na intensificação da Guerra do Vietnam, bem como, o confronto tecnológico, expresso na aceleração da corrida espacial.

Atualmente vivem-se ainda as repercussões da crise financeira que atingiu a economia mundial há cerca de uma década, com fortes impactos sociais e políticos, e em cuja origem se encontra uma crise de valores coletivos, dominados por uma visão materialista de busca insaciável de lucro, a alimentar um apetite consumista acima das reais possibilidades.

Os cenários que apontam para uma possível réplica da crise nos próximos anos revelam que, apesar das medidas no campo económico-financeiro, os valores da sociedade não mudaram significativamente. Com Júpiter e Saturno domiciliados, este é um momento privilegiado para ativar essa mudança, no sentido de desenvolver valores sociais mais humanitários e menos materialistas (ao mesmo tempo que Plutão em Capricórnio requer a regeneração das estruturas de poder e Úrano em Touro promove a transformação de valores na relação com a matéria).

Mas, se não houver uma maior consciencialização e alteração no foco de abordagem, os planetas sociais podem conjugar-se para sustentar a perceção atual, pois, Saturno em Capricórnio cria uma noção de segurança assente no aumento da regulação e supervisão (a começar pelos mercados financeiros), enquanto Júpiter em Sagitário proporciona uma visão otimista de crescimento e prosperidade futuros (atualmente focada na perspetiva económica). E, perante novos desafios, as respostas tendem a surgir sob a forma de dogmatismo, proselitismo, demagogia e populismo.

Numa expressão mais elevada, Saturno em Capricórnio permite encarar as situações com realismo, promover a eficiência dos recursos e a contenção do consumo. E Júpiter em Sagitário proporciona uma perspetiva mais ampla e esclarecida das questões, para que se tomem decisões livres e conscientes, onde os direitos sociais e o bem-comum assumam maior importância do que o crescimento económico. Equilibradamente conjugados, os princípios de Júpiter e Saturno (potenciados nos seus domicílios) permitem trilhar o caminho da liberdade responsável e do crescimento sustentável.

Só olhando realisticamente para o futuro que é construído hoje, acreditando na potencialidade de fazer melhor amanhã e atuando com perseverança e bom senso para concretizar essa melhoria, se pode tirar o máximo proveito deste período de domiciliação conjunta dos planetas sociais.

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