Clélia Romano – Marsilio Ficino e a delicada questão do signo de Aquário

Devido à precessão dos equinócios estamos entrando na era da Aquário.

Muitos astrólogos acreditam tratar-se de uma época de abertura e humanismo. Em parte podemos prever algum desenvolvimento referente à ideias, visto que Aquário é um signo de ar. Mas tais ideias nem sempre e, especialmente em Aquário, tem a ver com ideais.

Não podemos esquecer que Aquário é regido pelo maior maléfico, Saturno, e que Saturno, por ser um planeta diurno, tem mais alegria em Aquário que em Capricórnio, que também rege.

Dessa maneira, mantendo a visão tradicionalista, não apenas Aquário se opõe a Leão, mas tambem seus respectivos regentes, Saturno e Sol, o fazem.

Sendo o Sol o luminar diurno podemos esperar uma época mais obscura ligadas a ideias quando o signo de Aquário entre em sua plenitude.

Algo a se levar em consideração é o fato de muitos astrólogos identificarem os signos com as casas, o que é um erro.

Ora, os signos referem-se à posição das constelações do céu. As casas são o fenômeno mais terrestre que existe, pois é vivenciado como a mudança entre dia e noite e as horas durante o período de um dia.

Emquanto isso, as constelações permanecem imutáveis. Quem muda é a terra, oferecendo a cada duas horas uma posição diferente a leste.

O fato de observarmos ao amanhecer o signo de Áries durante o outono do hemisfério sul, não significa que o amanhecer ou a casa 1 tenha a ver com Áries, visto que, em outra latitude e longitude, Libra, ou qualquer outra constelação/signo, pode ser visto.

Muito do que se pensa a respeito de Aquário relaciona-se ao fato de, no zodíaco padrão, que tem Áries como inicio, Aquário aparecer na casa 11, que é uma casa positiva, ligada á fraternidade e à esperanças e onde Júpiter tem seu júbilo.

Porem, Júpiter rejubila-se na casa 11, qualquer que seja o signo onde aparece, e não necessariamente em Aquário. Portanto, há grande diferença entre signo e casa.

Outra coisa a notar é que os signos ou constelações tem caracteristicas:

Quanto ao modo podem ser fixos, comuns e mutáveis. Os signos fixo mantem as coisas como estão. Os comuns, iniciam as coisas e os mutáveis agem ora de uma forma, ora de outra.

Quanto ao gênero, os signos podem ser femininos e masculinos. Os signos femininos são centrípetos, esperam, os masculinos são centrífugos, vão em busca.

Quanto à natureza os signos podem ser de terra, água, fogo e ar. Os signos de terra aguardam, esperam segurança mataria, os signos de água, aguardam seguança emocional, os signos de ar vão em busca da liberdade de ideias e os de fogo, vão em busca da liberdade de ação

Em relação a Aquário, objeto de nosso estudo, trata-se de um signo masculino, de ar e fixo.

Os signos masculinos tendem à ser ativos e ir em busca das coisas. Os signos de ar, que são masculinos, tendem à buscar a liberdade de ideias e os signos fixos tendem à imutabilidade.

Percebemos aqui uma espécie de conflito interno em Aquário, pois sua imutabilidade restringe a ação à qual ele é propenso. Podemos dizer que trata-se de um signo que possui um conflito em si mesmo.

Em Leão, tambem fixo, mas de fogo, também temos problema na hora de agir, mas o Sol, seu regente, muda de signo com muito mais presteza que Saturno. 

Aquário está aprisionado em sua liberdade de ideias e mesmo se Saturno estiver em um signo masculino de ação, Saturno é um planeta lento, o mais lento de todos, o que sempre sugere delongas.

Aquário almeja a a liberdade de ideias mas não consegue agir nessa direção por estar sujeito a seu modo, que reflete a imutabilidade.

Ocorre que, apesar dessas caracteríticas mais gerais, os signos se manifestam através de seus regentes e é então que individualizamos uma carta, seja ela mundial, pessoal , eletiva ou horária.

Nesse caso, existem técnicas específicas para a astrologia mundial e para as natividades.

Foi então que, numa discussão sobre astrologia mundial, onde foi citada a  era de Aquário que traria “esperanças” para a humanidade, o que não concordo, pois Aquário é regido pelo maléfico Saturno e no Thema Mundi onde ele ocupa a Casa 8, que me deparei com a carta de Marsilio Ficcino, um astrologo, filosofo, tradutor e poeta da Renascença.

Não tinha conhecimento da carta, mas o assunto me interessou pelo fato deste nativo, que escreveu “tres livros sobre a Vida” “meditações da Alma”, a sobre a natureza do amor, ente outros, tinha Aquário no Ascendente com Saturno.

Comecei a ler sua biografia e a analisar sua carta, no inutito de entender o sentido de Aquário e seu regente estarem no ascendente e termos um caso de um autor pródigo de ideias e um transmissor das mesmas.

Muito se diz sobre a vida de Marsilio Ficino, mas em termos verdadeiramente pessoais, se era feliz ou infeliz, se teve algum amor, como se relacionava com as pessoas, não temos nada. Sua vida, segundo a Wikipédia e outros sites, se resume somente em sua produção intelectual, sua inteligência e a proteção dos Medici. Não há livros em nenhuma lingua, nem mesmo em italiano, que narrem sua biografia, a não ser por alto, mas abundam análises de seus escritos.

Primeiramente vou colocar sua carta, obtida no Astrodatabank tida como AA, isto é, horário confiável. A seguir vou colocar sua biografia como é encontrada em inúmeros sites e depois vou delinear a carta, dando ênfase ao signo de Aquário que ascende . 

A seguir  vamos nos debruçar sobre sua historia de vida.

Citarei no presente artigo a biografia fornecida pela Wikipedia, mas forneço ao final outras fontes aos interessados em conhecer mais de sua obra.

De https://pt.wikipedia.org/wiki/Mars%C3%ADlio_Ficino 

(nascido em Figline Valdarno19 de outubro de 1433 – Careggi, Florença1 de outubro de 1499), filósofo italiano, é o maior representante do Humanismo florentino.

Juntamente com Giovanni Pico della Mirandola, está na origem dos grandes sistemas de pensamento renascentistas e da filosofia do século XVII. Traduziu obras de Platão e difundiu suas ideias.

Depois de adquirir as primeiras noções de língua grega, inicia seus estudos de filosofia e já em 1454, aos 19 anos, escreve uma coletânea de textos em latim, a Summa philosophiae, em que trata de física, de lógica, de Deus e de “aliae multae questiones”. 

Em suas cartas a amigos, mostra profundo interesse em prosseguir seus estudos platônicos.  

Estudou também os textos GalenoHipócratesAristótelesAverróis e Avicena.

Marsílio Ficino teve a fortuna de ser filho do médico dos poderosos Médicis de Florença. Assim, desde a sua juventude tornou-se amigo e manteve estreita relação intelectual com Cosme de Médici, o Velho, um dos homens mais ricos da Europa àquela época e grande entusiasta da cultura grega. 

Cosme escolheu Ficino para estudar e difundir a tradição platônica em Florença. Para tanto, doou-lhe uma “villa” em Careggi, na parte norte de Florença, para ali sediar a academia platônica, ou antes, neoplatônica florentina, inspirada na antiga Academia de Platão. 

Além disso, Cosme confiou-lhe também a missão de traduzir o Corpus Hermeticum – os escritos atribuídos ao legendário Hermes Trismegisto – bem como as Eneadas de Plotino, entre outros textos de filósofos neoplatônicos. 

Após a morte de Cosme, seu filho Pedro e depois o neto, Lourenço, o Magnífico, continuaram a apoiá-lo.

Apesar de ser amigo dos Medici, ele teve boas relações com as pessoas envolvidas na conspiração de Pazzi ao mesmo tempo. 

As atividades da Academia consistiam de reuniões, debates, discursos, cantos e bailes ao som da lira, em um estilo de vida não guiado por um regulamento preciso mas pela personalidade de Ficino. Anualmente, no dia 7 de novembro, suposta data do aniversário de Platão, um seleto grupo de intelectuais se reunia em Careggi, a convite de Lourenço, para um banquete, claramente alusivo a “O Banquete” de Platão.

Marsilio Ficino utilizou pela primeira vez a expressão Amor platonicus, como um sinônimo de amor socrático.

Como um homem do Renascimento, Ficino tinha também conhecimentos em outras áreas, tais como medicina e música, mas revelou-se sobretudo um grande tradutor. Traduziu para o latim não só a obra de Platão (1477) mas também, por sugestão de Pico della Mirandola, traduziu Plotino (1485) e outros neoplatônicos. Seu trabalho de tradução terá influência decisiva para a formação do pensamento da Idade de Ouro da Renascença.

Em 1473 foi ordenado padre. Não obstante, por seu interesse pelas ciências ocultas é acusado de necromancia em 1482, quando escreve uma Apologia em sua própria defesa.

Com a morte de Lourenço, em 1492, rompe-se o equilíbrio político entre Florença e os demais estados italianos, obtido graças a  grande habilidade política de Lorenço. Segue-se um período sangrento de guerras e invasões.

 O declínio dos Médicis influirá negativamente sobre a vida de Ficino. As atividades da Academia foram extintas e seu pensamento é duramente criticado pelo poderoso clérigo Girolamo Savonarola, contra o qual o Ficino escreverá uma Apologia em 1498. 

Desgostoso, o filósofo se retira, vindo a falecer em sua casa de Careggi, em 1499.

Delienação:

Como vemos, trata-se de uma carta cujo ascendente é Aquário. A motivação primária do nativo é ir em busca da liberdade intelectual. Sendo Aquário um signo fixo, persiste nessa meta, mas possui pouca maleabilidade na forma de busca-la. Saturno, regente do signo, é um planeta masculino e se encontra dignificado por domicílio.

Possuindo o regente do ascendente no ascendente vemos que Marsilio era principalmente interessado em seus próprios objetivos. Mas a eles se opõe Júpiter em Leão, que analisaremos mais tarde.

Saturno é o dispositor da Lua e de Marte. A posição da Lua é basttante negativa, em signo onde tem seu detrimento e em casa maléfica.

Isto nos reporta a um tipo de vida recluso, o que é confirmado pelo fato de Marte, o regente da profissão e da Casa 10, encontrar-se tambem cadente na casa 12. 

Mercúrio, posicionado na cúspide do MC verdadeiro, faz um sextil com Marte na doze e ele, Mercúrio, é que é o dispositor da profissão do nativo: escrever sobre coisas profundas e sérias, em completa solidão.

A carta é diurna e o Sol encontra-se na Casa 10: o brilho será obtido sem que o nativo aja, visto que o Sol está em signo feminino e passivo, mas pelo fato de Jupiter na casa 7 em Leão, receber o Sol do nativo por domicílio. 

O fato do regente do MC, Marte, fazer sextil com Mercúrio, e estar ele mesmo em Capricórnio, em sua exaaltação,  tornam os escritos e o estudo profundo algo de muita impotancia para a reputação do nativo.

Portanto, vemos a parceria com pessoas solares e ricas  que admiram os estudos de Marsilio. Vênus é regente da Casa 8, e encontra-se em queda. Ela rege a casa 4, e Marsilio recebe de Cosme uma vila para morar e estudar.

Seus parceiros solares o recebem na corte e valorizam seu conhecimento, mas  exigem dele algumas tarefas, tais como determinadas traduções de toda obra dos neo platonistas.

Não vejo Marsilio como uma pessoa com alta auto-estima, ao contrário, ele parece taciturno, humilde e timido.

Talvez por isso, aliado a seu talento mercuriano profundo e investigativo, não representasse ameaça, sendo protegido pelos Medici, desde que desenvolvesse as traduções requeridas, pois Lourenço era um grande admirador de Platão.

No final de sua vida Marsilio se faz consagrar padre. Isto se vê porque Saturno rege não apenas a casa doze, mas é regente de exaltação de Libra, a casa 9.

Nada se sabe, mas, em meu entender, Marsilio se sujeitou ao poder de Júpiter, que agiu  para que ele realizasse seus estudos. Como é uma oposição a Saturno, festas e comemoraçõe, que eram importantes para os Medici, não eram para Marsilio, que preferia uma vida de clausura e estudo.

Com esses pensamentos espero ter mostrado que a motivação primária foi atingida submetendo-se à Jupiter, os Medici.

Tivesse ele um ascendente em fogo, por exemplo, dificilmente teria evitado  querelas em meio a um ambiente repleto de conflitos pelo poder da época.

Não sabemos como Marsilio se sentia, mas é bastante possível que tenha sido necessário abaixar a cabeça ao desejo dos poderosos e que teria desejado  pesquisar coisas de forma diferente, como por exemplo a magia.

Mas, o signo de Aquário no ascendente leva a grande imutabilidade, embora Saturno, aí domiciliado, seja masculino e leve a uma ação, embora lenta. No final da vida ele se tornou padre.

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