João Acuio – Manifesto

Manifesto – Algumas considerações sobre astrologia, oráculo e função dramática

Oráculo é todo e qualquer jogo, aberto sob o signo do acaso, que se estrutura e fala segundo gramática própria e versa sobre a sorte e suas vicissitudes.

Toda consulta a um oráculo produz um lance de dados.

O oráculo é estrutura narrativa, produz trama de significados.

Ao se abrir o oráculo, o curso da narrativa começa o seu percurso.

Não há acaso para a gramática, muito menos para a narrativa ou enredo.

O acaso está contido no coração do texto.

O oráculo não existe, é preciso criá-lo.

O oráculo só existe se alguém consultá-lo.

O primeiro passo está no corpo da voz de quem o busca.

Não é prudente oferecer a leitura da sorte como o vendedor que grita suas ofertas nos corredores do mercado.

Baralho, runas, estrelas – o material do jogo pouco importa, o que interessa é a narrativa fruto do lance de dados.

A sorte tem rumo, mas o oráculo é uma volta ao centro do mundo.

O oráculo é o umbigo do mundo.

E o umbigo é a marca entre mundos.

O oráculo nos une aos que foram e aos que virão.

O oráculo é um buraco.

O oráculo é um arco.

Quem busca o oráculo o faz na ambição de dar pernas ao Destino, este ator invisível.

“- Quem me tornarei no fim da vida?”

“- Quem estou me tornando a cada passo?”

“- Estou me tornando quem eu sou?”

Oráculo é cavalo da sorte, televisão do mundo, mordida na maçã anciã.

O texto oracular versa sobre o futuro, o presente e o passado, mas o tempo do oráculo é agora e atemporal.

Temporal.

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Não há verdade, o que há são narrativas.

“Roteiros roteiros roteiros roteiros roteiros.” (Oswald de Andrade)

Ler um oráculo equivale a fabricar um mundo: cinema falado.

– é um ato poético.

poiésis: fabricar mundos com palavras.

É um ato terrível.

É um ato primordial.

poiésis: “um produzir que dá forma, um fabricar que engendra, uma criação que organiza, ordena e instaura uma realidade nova, um ser.” (Benedito Nunes)

A voz do oráculo fala uma língua ritual.

O hálito do verbo une os átomos.

O oráculo compõe uma cena dramática tão antiga quanto o signo.

“Como vencer a morte e o mistério com o auxílio de algumas fórmulas gramaticais?” (Oswald de Andrade)

O tradutor faz uso da palavra.

Quem pergunta faz uso da palavra.

Dentro da boca há um céu.

A representação é e não é o mundo.

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Poeta, Astrólogo e Saturno, creio, são sinônimos. Poesia é a medula de Saturno. Ou melhor: o visco da medula de Saturno, o musgo. O musgo do tempo. Cada mapa tem uma voz interior, assim como um bom poema e o espírito de cada dia. Traduzir um mapa é escrevê-lo, cravá-lo nas costas do Tempo. E, para traduzir, é preciso fazer escolhas narrativas que a própria estrutura oracular propõe. Saturno é Mercúrio. Mas quem prepara o objeto-poema-celeste é o poeta-astrólogo-adivinho. E é de sua responsabilidade a feitura do texto.

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Os atores:

Quem pergunta, quem responde, quem traduz.

Quem pergunta é da Lua.

A ferramenta que delimita a resposta é de Marte.

Quem traduz é Mercúrio.

Lua

Quem pergunta sofre de dúvida – é a razão da existência do oráculo.

Tem tatuado nas pálpebras a seguinte máxima: crença é profecia, crença é profecia, crença é profecia…

Quem pergunta é Tirésias ao contrário.

Quem pergunta ama o oráculo.

Quem pergunta odeia o oráculo.

Quem pergunta transfere ao oráculo a sua esperança.

Quem pergunta transfere o seu horror.

Quem pergunta transfere o seu amor.

Marte

A máquina lembra que há um modo para operar a máquina.

O oráculo é máquina que debulha sentidos, arma a granada, separa o caos do lince.

O oráculo é métrica, rima, mídia – é o labirinto e o fio da narrativa.

Sua principal lâmina é a analógica

Tem grafado no seu metal a seguinte frase:

Mau agouro não é prognóstico.

Mercúrio

Tem a obrigação de dominar a máquina analógica, a arte da correspondência.

O tradutor alia-se aos que um dia doaram as suas vidas e se feriram no reflexo das facas de Marte.

A tradição remete-o ao modus operandi dos que um dia trilharam esta mesma estrada.

Mercúrio é a ponte entre a Lua e Marte e Marte tem lá seus segredos com Hades.

A pessoa do tradutor do oráculo não existe, ao menos esta é a sua busca, sua Fortuna.

Ele é apenas o mensageiro.

O respeito à tradição evoca a proteção do espírito dos mortos.

O desdém à tradição evoca a indiferença do mundo dos mortos.

Quem olha nos olhos do lince tem o compromisso de ser fiel ao lince.

Depois de muito uso da ferramenta, cria-se uma aliança com a própria escuta e uma marca no fio da faca a ser deixada para posteridade.

Oráculo é escuta.

Oráculo é ofício dos segredos da tradução.

Mercúrio encontra-se entre a tradução e a traição.

Traduzir é ser fiel ao caminho do lince.

Mas, diante de uma encruzilhada, quem arbitra o caminho a escolher na tradução é o intérprete.

Quando o oráculo fala mais da pessoa do tradutor do que do texto a ser traduzido, o mistério fecha-se como o amor quando se fecha em copas.

“Só há determinismo onde não há mistério”. (Oswald de Andrade)

A função dramática

A consulta oracular é uma performance art.

Performance art: obra estruturada sob o signo do acaso, impossível de ser reproduzida.

Tem a função de preparar quem pergunta à sorte que o anuncia.

“Entre o sim e o não existe um vão.” (Itamar Assumpção)

A performance

É o que acontece durante a ação dramática.

Joga-se a sorte.

No tabuleiro ou nos céus, cria-se uma aliança entre quem pergunta, quem responde e o intérprete.

O tradutor faz uso da máquina analógica.

Tem a obrigação de dominar esta faca.

Quem pergunta, olha para o espelho.

 

“- Nasci com Ascendente no Caranguejo, por isso a minha vida anda para trás”.

“- Anda-se para trás e para baixo para seguir adiante.”

A lógica da correspondência nos tira da farsa da lógica da causa e efeito.

Quebrar o espelho dá sete anos de azar.

A construção do texto analógico vem em ondas, tem ritmo, métrica e dor, segue a marcha da máquina.

Analogia: como se não quisesse nada, aos poucos espraia sentidos para tudo quanto é lado.

A lógica da correspondência une os pontos vitais, formando uma constelação de significados, uma trama de sentidos, ao ponto de extrair uma lasca de luz da lâmina do escuro.

Destino é anagrama da palavra sentido, e vice-versa.

 

A leitura do texto oracular fabrica um mundo com palavras.

Quando a sorte é recriada, relida, reinventa-se o mundo.

Cura-se o mundo.

A performance oracular é uma co-criação, assim como o Destino precisa do Livre-Arbítrio.

É um ato criativo.

Suavemente criativo.

Terrivelmente criativo.

E aí o tradutor inventa-se como demiurgo.

 

Demiurgo, fr. démiurge (demiourgon) < lat. demiurgus,i, emprt. ao gr. démiourgós,oû ‘artista, médico, artesão’

 

Além da analogia, o tradutor lança mão da metáfora, do cinema falado, da ruptura da crença, do verso saturnino e do rito. Ah, e é claro, do senso de humor de Mercúrio. A variação de recursos para atingir o objetivo da função dramática (preparar a pessoa à sorte que se anuncia), dependerá do tipo da pergunta e do sorteio, é claro.

 

A performance é um rito. Não é preciso valorizar o cenário. Não queira nada, seja apenas suficiente.

O oráculo já é local profano e sagrado.

Se a performance atinge seu objetivo, quem pergunta deixou de ser Lua e se transformou na Fortuna.

A máquina, além de ficar mais suja de graxa, atinge sua sorte de ser ferramenta da Fortuna.

E o intérprete alcança sua ambição, seu destino, sua Fortuna, a de ser apenas o mensageiro.

 

Depois de ler o oráculo, feche-o como se fecha um túmulo.

Guarde o arco.

 

Cuidados com o oráculo (ícone de perigo com máquinas)

O tradutor pode se intoxicar com Mercúrio.

Quem pergunta pode não parar de perguntar.

A máquina pode emperrar a roda com os véus da ilusão.

 

A leitura de oráculos é uma arte da tradução.

Uma arte bandida.

Rouba-se o fogo dos deuses.

“Um lance de dados jamais abolirá o acaso.” (Mallarmé)

 

O próximo passo está na escuta de quem o procura.

 

Sobre o autor:

João Acuio, estuda Astrologia desde 1992. Criador do site Saturnália – Astrologia & Cidade, agora também Escola de Astrologia. Propõe uma astrologia enraizada nos fenômenos culturais e uma releitura crítica da astrologia antiga. Dedica-se preferencialmente à prática da Astrologia das Natividades. Nestes 28 anos, desenvolve o que chama de Dramaturgia Celeste, astrologia como linguagem, o Céu como narrativa.

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