Luiza Azancot – Será que a carta permanece ativa depois da morte?

No início dos meus estudos de astrologia li um livro com o título “The Only Way To Learn Astrology”  (A única forma de aprender astrologia!!!!) escrito por Marion March e Joan McEvers.  Já não o tenho em meu poder para fazer uma referencia pormenorizada, mas lembro-me de ter lido um comentário relativo a um trânsito à Lua progredida da carta do pintor Vincent Van Gogh (falecido há mais de 100 anos) coincidente com a venda por preço recorde do seu famoso quadro “Girassóis. 

Subjacente a esta informação está a pergunta – Será que a carta permanece ativa depois da morte física?

Não me choca nada essa ideia, antes pelo contrário… somos corpo e espírito; cada passagem por uma encarnação física tem consequências na vida dos outros, filhos, família, amigos, gerações futuras, através de ligações diretas ou através da obra que deixamos. Mas, na verdade nunca me tinha debruçado sobre o assunto.  

No caso dos artistas, filósofos, escritores esta pesquisa pode ser feita quando se verifica um interesse especial ou uma renovada popularidade na obra que deixaram. A grande exposição retrospetiva da obra do pintor português Amadeo de Souza-Cardoso nas Galeries Nationales do Grand Palais de Paris realizada entre 20 de abril e 18 de julho de 2016 forneceu-me essa oportunidade.

Biografia de Amadeo de Souza-Cardoso 

  • Amadeo Ferreira de Souza-Cardoso nasceu a 14 de novembro de 1887, em Manhufe, concelho de Amarante, filho de um importante proprietário rural e de Emília Cândida Ferreira Cardoso. O seu tio materno, Francisco José Lopes Ferreira Cardoso, apoia-o desde muito novo na sua vocação artística.
  • Em 1905 parte para Lisboa com a intenção de seguir o curso de Arquitetura na Academia de Belas-Artes onde conclui com sucesso três disciplinas de desenho. 
  • No dia em que completa 19 anos parte para Paris na companhia de Francisco Smith. Frequenta ateliês de preparação para o concurso à Escola de Belas Artes com o objetivo de cursar Arquitetura mas pouco tempo depois desiste para se dedicar inteiramente à pintura reunindo-se com outros artistas num ambiente próprio da vitalidade criativa de Paris do pré-guerra. Não tinha as dificuldades financeiras dos seus camaradas por isso o seu ateliê torna-se num ponto de encontro. 
  • Em 1908 conhece Lúcia Pecetto com quem viria a casar no ano de 1914.
  • Em 1909 passa a frequentar a Academia Viti dirigida pelo pintor espanhol Anglada Camarasa e conhece o pintor italiano Amadeo Modigliani com quem expõe dois anos depois. Relaciona-se com artistas como Picabia, Juan Gris, Diego Rivera, Sónia e Robert Delaunay. 
  • Em 1911 expõe seis trabalhos no XXVII Salon des Indépendants em Paris e no ano seguinte expõe novamente no Salon des Indépendants  e no Salon d’Automme. 
  • Em 1913 participa no Armory Show, em Nova Iorque, com oito trabalhos. Três destes trabalhos são adquiridos pelo crítico de arte Arthur Jerome Eddy que reproduz algumas das suas obras no livro “Cubists and Post-Impressionism”.

 

Amadeo de Souza-Cardoso (1887–1918); Biblioteca de Arte, Fundação Calouste Gulbenkian. Wikipedia

 

  • A aproximação da Primeira Guerra Mundial impede a realização do London Salon onde obras suas tinham sido aceites. No Verão de 1914 encontra-se em Barcelona com o arquiteto Antoni Gaudi . Surpreendido pela eclosão da Guerra, regressa a Manhufe já casado, dividindo o tempo entre a casa materna e a casa de Espinho.
  • Em 1916 Amadeo publica uma selecção de “12 Reproductions” e em Lisboa,  e encontra-se com José de Almada Negreiros e o Grupo da Revista Orpheu, revista que tencionava publicar um terceiro número no qual reproduziria obras de Amadeo. Realiza duas exposições em Portugal, uma no Porto que é recebida com hostilidade por parte do público e outra em Lisboa a qual é acompanhada por um texto/manifesto de Almada Negreiros.
  • Em abril de 1917 realiza-se uma sessão futurista no Teatro da República, da qual surge a ideia de publicar a revista “Portugal Futurista” que foi apreendida. Nela constavam três obras de Amadeo.
  • No ano de 1918 uma doença de pele impede-o de pintar. A 25 de outubro morre bruscamente em Espinho, vítima da “pneumónica”, epidemia que assolou a Europa no final da Guerra.

A obra de Amadeo de Souza-Cardoso

A sua vida foi muito curta, morreu antes de completar 31 anos e se bem que os anos passados em Portugal foram de grande frenesim criativo sempre na esperança de voltar a expor em Paris, a divulgação da sua obra foi muito limitada. Portugal, um país culturalmente atrasado, nada faz para divulgar este grande artista. 50 anos após da sua morte a Fundação Calouste Gulbenkian compra algumas obras de Amadeo e em 1983 com a inauguração em Lisboa do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, as suas obras podem ser vistas pelo público nacional.

Até à grande retrospetiva de 2016 em Paris realizaram-se apenas meia dúzia de pequenas exposições da sua obra em Portugal, Bruxelas e Madrid. 

A exposição no Grand Palais

O Grand Palais em Paris foi construído para abrigar a Exposição Universal de 1900 sendo um conjunto de espaços impressionantes onde são realizados grandes exposições de pintores como Turner, Renoir e Picasso. A escolha do local por si só mostra o valor que os curadores atribuíram a Amadeo. O catálogo da exposição classifica-o assim: “Amadeo de Souza-Cardoso é um artista multifacetado cuja obra encontra-se no cruzamento de todos os movimentos artísticos do século XX. Além influências impressionistas, fauvistas, cubistas e futuristas, ele recusa rótulos e cria uma arte que lhe é própria, entre tradição e modernidade, entre Portugal e Paris. Duzentos e cinquenta obras de Amadeo e seus amigos próximos, Modigliani, Brancusi e que o casal Delaunay estão reunidos nesta exposição é a primeira grande retrospetiva dedicada ao artista Português desde 1958”.

Capa do catálogo da exposição mostrando a quadro “Galgos”

A critica e o público é unânime. Rendem-se ao génio de Amadeo de Souza-Cardoso. No website do Grand Palais consta a seguinte descrição: “Provavelmente, não há no século XX  um grande artista tão surpreendentemente esquecido como Amadeo de Souza Cardoso. O historiador de arte americano Robert Löscher descreveu-o em 2000 como “um dos segredos mais bem guardados da arte moderna”.  Levado aos trinta anos pela epidemia de gripe espanhola, tendo deixado no início da guerra a vanguarda parisiense de que ele era uma das figuras mais originais, Amadeo saiu dos ecrãs de radar e manteve a sua celebridade seu próprio país. No entanto, conseguiu deixar sair uma obra impressionante, simultaneamente refletindo todas as revoluções estéticas do seu tempo e diferente de qualquer outra. Se observarmos atentamente a cronologia de sua convivência com Modigliani e Brancusi, muitas vezes é Amadeo que se destaca como um inventor de formas.”

A astrologia 

Com a certidão de nascimento obtida graças a uma aluna de Isabel Guimarães, foi fácil fazer a carta de Amadeo.   À primeira vista não encontrei nada que justificasse astrologicamente esta explosão de popularidade de um artista que era um segredo tão “bem guardado”. Depois lembrei-me desse livro de astrologia básica que falava na progressão da Lua de van Gogh.  Progredi a carta de Amadeo para o dia de início da exposição, e quase que tive um choque por ser tão obvio o que se passava em termos de trânsito ao Ascendente progredido. Plutão lá estava a desenterrar o tal segredo e a revelá-lo. Costumo dizer que o Ascendente é a nossa janela para o mundo e neste caso podemos dizer que Plutão a escancarou de par em par.

 

 

Outro caso – Les Mis

Fui analisar a carta de Victor Hugo, escritor bem conhecido do público literário, que na realidade é um publico bastante restrito. O seu tema tem um rating de AA por isso fiável para uma pesquisa deste género. Com a produção musical “Les Misérables” , baseada no seu livro com o mesmo títlulo, 70 millhões de pessoas  em 44 países conhecem agora Jean Valjean, Cosette e o contexto da Insurreição Republicana de 1832 em Paris, sem contar com os milhões adicionais  que trauteiam “I Dreamed a Dream”.

Esta produção estreou em 1980 em Paris em francês, contudo o êxito retumbante só se verificou com a tradução para inglês e a estreia no West End de Londres a 8 de outubro de 1985 e logo a seguir na Broadway de Nova Iorque. Segundo o website é o musical mais popular de todos os tempos.  Pode-se dizer que nesta data Victor Hugo ganhou uma visibilidade impar. 

Astrologicamente falando: em 1985 passou pelo Ascendente natal Victor Hugo em trânsito o poderoso planeta Plutão. Como diriam os franceses “Et voilá!”

Conclusão

Verifiquei que há séculos que este assunto tem feito correr tinta. A astróloga brasileira Clélia Romano, especialista em astrologia medieval, escreveu um artigo baseado num preceito de Abu Mashar, sobre este tema intitulado “Imortalidade da Carta Astrológica”  , e na página 5 desse artigo afirma “A carta da pessoa falecida atua como uma construção matemática, um constructo, um “como se” e a ordem astrológica permanece vigente”.    

Pois efetivamente  a nossa carta permanece vigente, o que nos responsabiliza ainda mais pelo que fazemos a cada dia da nossa vida!

Luiza Anzacot – membro nº 15 – edição nº 18 do Jornal Astrológico 4 Estações da ASPAS-Associação Portuguesa de Astrologia

 

 

  1.  Elementos biograficos retirados de http://www.amadeosouza-cardoso.pt/pt/historia/amadeo-de-souza-cardoso
  2.  http://www.astro.com/astro-databank/Hugo,_Victor
  3. http://www.lesmis.com/
  4. http://www.astrologiahumana.com/ImortalidadeDaCartaAstrologica.pdf

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